sábado, 20 de junho de 2009

Prefácio

Mestre Matuiing

Hugh Clarkson parou em frente da pequena cabana coberta com palhas amarradas e entrelaçadas, formando um telhado frágil. Respirou fundo antes de passar pelo pano colorido que cobria a entrada da cabana.
- Seja bem recebido na minha casa, Kondro. – sibilou uma voz grave e rouca, gasta pelo tempo. O homem negro estava sentando sobre uma carpete colorida, com as pernas cruzadas em chinês e tinha os olhos cerrados. O cheiro aromático do incenso era demasiado forte e pesado no ambiente quente.
Matuiing tinha aspecto de nativo. Várias rugas a marcavam-lhe o rosto velho e o seu longo cabelo azul-escuro caia pelas costas despidas. A barbicha no queixo enrolava-se num pequeno caracol.
- Mestre Matuiing mandou-me chamar? – perguntou Hugh, enquanto o homem lhe indicava que devia sentar-se á sua frente. Hugh sentou-se sobre a carpete, com as pernas também cruzadas.
- Sim, Kondro Hugh. Pedi que vossa majestade viesse urgentemente ao meu encontro pois á tempo demasiado que espero ter esta conversa com vossa majestade. Adiei este encontro até onde pude, mas vossa alteza não pode esperar; Feest não pode esperar mais.
Hugh fitou o homem negro durante alguns momentos, sem se pronunciar. O silêncio era incómodo naquele momento de expectativa e o jovem de cabelos curtos castanho dourado começava a interrogar-se o que tão grave poderia estar para acontecer. O homem nativo continuava calmo e sereno, inatingível.
O homem continuou.
- Vossa majestade acredita na magia de Feest? Acredita em todos os seres sobrenaturais e sobre-humanos que habitam nas terras desconhecidas de Thor?
Thor, um mundo, um planeta consumado noutra dimensão, ignorante quanto á vida noutros planetas que não a Terra, cujos habitantes também ignoram a existência do povo Thoriano. Feest é apenas uma pequena terra, uma pequena povoação nesse mundo desconhecido.
- Claro, Mestre Matuiing. Acredito em tudo o que Thor e Feest têm envolto. – garantiu o jovem, ainda confuso e ainda mais ansioso pela explicação do curandeiro.
- Então meu jovem príncipe, também acrediteis nas profecias criadas pela terra, pelo ar, pela água e pelo fogo? Acrediteis no destino organizado pelos elementos, que dizem que pouco do que nasce não morre? O Kondro acredita que só quem realmente tem capacidades e é útil neste mundo fica vivo indeterminadamente? – o homem prosseguiu, ainda impávido e sereno. Os olhos não se abriam para fitar o jovem á sua frente, que porém, continuava a olhar o curandeiro confuso.
- Acredito sim, Mestre Matuiing. O senhor é a prova que esse destino criado pelos elementos principais é verdadeiramente puro. – Hugh inclinou um pouco a cabeça, fazendo uma vénia ao velho nativo.
O homem esboçou um pequeno sorriso.
- Então, estais pronto para conhecer a sua profecia, o seu destino que espero que não tente lutar contra ele?
- O meu destino já está consumado, Mestre Matuiing. Casarei com Missina e ajudarei minha irmã a governar Feest. – afirmou asperamente o rapaz.
- Cuidado com a escolha de palavras, meu jovem. Esse não é o seu destino consumado; é o destino que os seus pais quiseram para si, pensando como humanos. Meu jovem, apesar de serdes humano, uma ligação forte prende-vos a Feest; vossa alteza é uma criatura tão mágica como outra habitante nos montes e nas águas de Thor.
Hugh não retorquiu. Continuou a fitar o velho, que sorria mais abertamente, como se estivesse a ler o seu pensamento confuso.
- Vossa majestade ainda é jovem, livre de viver tantas experiências mas o seu destino está traçado desde sempre. E será inevitável que se concretize.
- Eu não quero ouvir mais, Mestre Matuiing – Hugh levantou-se da carpete colorida. – Eu não necessito de saber uma profecia em que eu não acredito.
- O príncipe pensa que é imune aos elementos, por ser humano.
O homem afirmava.
- Sim, penso mesmo que sim. Penso que Arkeu não me tem em conta na sua lista. – murmurou, rispidamente.
- O facto de não terdes um Dom, não significa nada. – o homem sorriu.
- Desculpe Mestre, mas vou-me embora.
- Tenho pena que não queiras saber o seu destino, vossa alteza. Que Arkeu o acompanhe.
- Não penso que ele me acompanhe. – retorquiu Hugh, enquanto saia da pequena cabana e caminhava para a diligência real que o esperava a poucos metros do bosque aberto.
No dia seguinte, Mestre Matuiing foi encontrado sem vida na sua cabana. A sua vida que durara longos milénios em Feest chegara ao fim após ter cumprido a sua última missão: tentar contar ao Kondro de Feest o que lhe esperava.
A guerra começaria a partir daquele momento em que Feest, uma terra nos subúrbios de Thor, estava demasiado frágil sem o seu curandeiro principal, o Mestre Matuiing.
E só uma pessoa poderia salvar Feest, num cruzar de destino fatal, em que o amor e o ódio, a paixão e a compaixão andariam de braços dados.





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