quinta-feira, 25 de junho de 2009

Capitulo Um - Manhã de Sábado

Pertencente á pequena cidade de Abrantes, perdida algures no relevo plano de Portugal, existe uma freguesia com cerca de dois mil duzentos e vinte e sete habitantes. Nessa despercebida e exígua área corre um rio prestigiado e de caudal largo, onde a água cristalina reflecte os raios de Sol nas tardes estonteantes de calor ou alberga as gotas de chuva que transbordam das margens em dias chuvosos. Os salgueiros debruçados sobre as águas límpidas e os patos selvagens que, raramente, deambulam por ali dão o seu ar de graça e mistério às águas pouco profundas. As duas pontes dispostas sobre o rio contribuem para o ambiente arrojado e frenético de pequena cidade ao mesmo tempo que ligam Rossio ao Sul do Tejo á cidade.
Eu moro ai.
Era Sábado de manhã. Rossio encontrava-se debaixo de um pesaroso manto de nuvens negras e o vento fustigava os ramos das árvores contra as janelas da sala. O Sol parecia nem existir á excepção do ínfimo rasgo dourado entre as nuvens cinzentas e carregadas, dourando o espaço á volta.
Como de á dois meses para cá, antes de o despertador tocar, levantei-me deambulante e encontrei na varanda o refúgio ideal para passar as três tortuosas horas que faltavam para a alvoraçada. Com o regresso da estação das chuvas, ficara terrivelmente ansiosa, perdendo totalmente o sono e apetite. Não considerava aquilo mau presságio, simplesmente algo normal. A chuva afectava-me peculiarmente.
A varanda descoberta estava tornada numa poça de água com dois centímetros de altura, qual água não era incómodo. Sentei-me na poça, refastelada contra a parede. As gotas da chuva fustigavam-me o corpo suavemente; quase como carícias. Fechei os olhos e deixei que os meus sentidos relaxassem; ali, debaixo da chuva, com a Lua brilhante numa ardente bola de fogo era demasiado fácil.
Recordei o dia anterior.
Nessa manhã de sexta-feira, havia acordado pessimamente mal. O som doentio do despertador magoava-me os ouvidos e todos os músculos do meu corpo, que começava a reagir á luz do Sol insistente no lado de fora da janela. Como todas as manhãs, de á dois meses para cá, eu estava a morrer de sono, com a sensação de ter dormitado dez minutos e com uma lerdice crónica matinal. Rastejei literalmente para fora da cama, enrolada no lençol, acabando por bater com a cabeça no puxador da gaveta da mesa-de-cabeceira. Bocejei e deixei-me ficar imóvel; o chão era despropositadamente confortável.
- Mas que maneiras são essas, Norma? Levanta-te, querida. – A mãe sussurrava-me ao ouvido, com a voz fina e fluida. Beijou-me a testa e puxou o lençol, fazendo-me rodopiar no chão. Coloquei-me de barriga para baixo, com as mãos a servirem-me de almofada e cerrei as pálpebras fortemente.
- Querida, por favor, levanta-te. – Pediu a mãe, em tom de advertência. Eu continuei a fingir dormir.
- Muito bem, Norma. – O seu tom já não era risonho e já não havia a nota divertida. – Se quando eu acabar o pequeno-almoço tu ainda não estiveres pronta, eu juro que nunca mais, num fim-de-semana da tua vida, pões os pés em casa dos teus avós!
Abri os olhos repentinamente, levantando-me com a raiva a produzir a adrenalina que me dera uma força súbita nas pernas e me aquecera o corpo.
- Nem tentes fazê-lo. Sabes perfeitamente que nunca mais porias os olhos em mim. – sibilei.
A mãe abanou a cabeça.
- Porque é que tens sempre de me atacar? Porque é que nós não podemos ser uma mãe e filha, como eu vejo as minhas colegas do hospital? – A mãe falara com voz frágil, como esgotada. Não tive pena.
Sorri, amargamente.
- Talvez as filhas das tuas colegas não vejam os seus pais nos avós paternos. Vou tomar o pequeno-almoço.
A mãe ficou para traz, imóvel no lugar, enquanto eu caminhava imperturbável pelo corredor. O meu pai já havia tomado o pequeno-almoço, óbvio. Á quase três dias que não o via; era praticamente impossível encontrar-me com ele em casa. Tinha-se de mandar mensagem para o Blackberry ou ligar para a recepção do hospital para pedir alguma coisa. Sim, porque eu só pedia. Pelo menos, desde que as mensagens de bom-dia! e bom trabalho! ficaram esquecidas na caixa de entrada do seu aparelho.
Peguei numa taça, no pacote de cereais Nesquik e verti o leite achocolatado de pacote para dentro da taça esbranquiçada. Era a fundição perfeita de calorias matinais.
- Os cereais já têm chocolate suficiente, Norma. Escusa-savas de por o leite achocolatado. – A mãe soluçou, de olhos molhados e faces marcadas com rastos de lágrimas. Senti raiva, não sei se dela por estar a chorar ou de mim, por tê-la magoada a esse ponto.
- Precisas mesmo de chorar? – indaguei friamente mas desanimada. Eram poucas as vezes que eu me sentia arrependida dos meus actos.
- É um direito do ser humano, querida. Eu choro como rio. – Sorriu.
Baixei o olhar, enquanto brincava com os cereais.
- Tu sabes como eu sou de manhã, mãe. Sou preguiçosa e anormalmente mal-educada. E depois tu vens-me fazer uma chantagem daquelas… eu desnorteei-me. Fraca desculpa, eu sei, mas…
- Eu choro porque eu sei que tu tens razão, Norma. E eu seria incapaz de te proibir de ver os teus avós, logo agora, neste momento difícil. – O momento difícil era o facto de o meu avô ter tido recentemente um AVC, que lhe afectara algumas partes do corpo. Já não conseguia falar normalmente e o seu Alzheimer ficara mais acentuado.
- Mas, parecendo que não, eu e o teu pai amamos-te muito. Eu sei o que tu pensas, filha. Tu achas que não existes para nós, mas não é verdade. Simplesmente…
- Vocês não têm tempo.
A minha mãe mordeu o lábio inferior.
- Nunca te faltou nada.
- Pois não. – Sorri. – E o que faltou da vossa parte, os meus avós deram-me e partilharam comigo. E não digo isto de modo a atacar-te, só que sou demasiado parecida com o pai; não gosto de reter coisas na garganta e no coração.
Levei uma colherada de cereais á boca, perguntando-me se era mesmo um coração que tinha.
- Vou para o hospital daqui a um quarto de hora. Posso deixar-te na escola.
Assenti com a cabeça, enquanto mastigava abruptamente de boca cheia.
Passado um quarto de hora, entrei no Renault Clio cinza da mãe, enquanto punha os phones nos ouvidos e mascava pastilha elástica. Os óculos de Sol escondiam-me as olheiras, enquanto as gotinhas de chuva molhavam-me o cabelo.
- Filha - mastiga a pastilha de boca fechada.
- Estou a incomodar-te? – Perguntei, cinicamente.
- É falta de educação fazê-lo.
Apeteceu-me dizer “Qual educação? Aquela que tu me deste?” mas não havia necessidade de provocar outra situação. Continuei a mascar a pastilha, de boca fechada, ao som de rock no meu MP3. Coloquei os pés em cima do banco, enquanto acompanhava o ritmo da música com umas baquetas imaginárias. Ainda pensei que a minha mãe voltasse-me a advertir para os bons comportamentos, mas ela permaneceu em silêncio. E o meu ego ficou magoado.
- Até logo. – Despedi-me, enquanto sai do carro e bati com a porta do carro. Junto ao portão da escola estava Vicente.
- Era a tua mãe? – Perguntou-me, enquanto se aproximava para me dar dois beijos.
- Já viste a sorte que tiveste em vê-la? Uma pessoa sempre tão sem tempo… Mas o meu pai nunca irás ver. – Fingi lamentar, gozando com a minha situação débil.
Ele abanou a cabeça.
- Ainda não percebi porquê tanta raiva ou o que é isso, em relação aos teus pais. Eles parecem-me boas pessoas. Eles não são médicos?
- O meu pai é cirurgião e a minha mãe é enfermeira. Isso faz deles boas pessoas, só porque salvam vidas de pessoas que nem conhecem? – Eles nem me conhecem – a sua própria filha.
Era ridículo dizer que eles eram boas pessoas só terem uma profissão quase nobre. Mas que interesse isso tinha para mim? Claro que tinha orgulho neles e gostava de poder usufruir do nível de vida que tinha por causa dos seus empregos, mas gostaria de ser mais do que uma peça de decoração em casa.
- Não te posso dizer nada em relação a isso. – Lamentou Vicente.
Sorri-lhe, agradecendo-lhe o facto de ele demonstrar preocupação. Era agradável saber que alguém se importava connosco, para além do seu umbigo.
- E este fim-de-semana o que fazemos? – Perguntou-me, mudando de tema. Começámos a caminhar pelo pátio, em direcção ao edifício um, onde teríamos a primeira aula da manhã.
Estremeci.
- Vou para a casa dos meus tios.

Os meus pensamentos estavam de tal maneira dispersos, entrevados num passado próximo, absorvendo a minha total concentração e sentidos que me esquecera literalmente que estava na varanda. Nessa altura, a chuva já havia cessado mas as nuvens continuavam negras, apesar de mais claras, devido á luz do dia. Apressei-me para a casa de banho, antes que a mãe ou o pai pudessem ver a minha figura molhada. Nem me preocupei com os meus avós; eles dormiam até tarde.
Foi quando regressei da casa de banho que dei pelo espesso manto de nuvens, dourado no ínfimo rasgo no céu. Não me atrevi a abrir a janela; o vento ainda soprava forte.

Capitulo Um - Manhã de Sábado

Pertencente á pequena cidade de Abrantes, perdida algures no relevo plano de Portugal, existe uma freguesia com cerca de dois mil duzentos e vinte e sete habitantes. Nessa despercebida e exígua área corre um rio prestigiado e de caudal largo, onde a água cristalina reflecte os raios de Sol nas tardes estonteantes de calor ou alberga as gotas de chuva que transbordam das margens em dias chuvosos. Os salgueiros debruçados sobre as águas límpidas e os patos selvagens que, raramente, deambulam por ali dão o seu ar de graça e mistério às águas pouco profundas. As duas pontes dispostas sobre o rio contribuem para o ambiente arrojado e frenético de pequena cidade ao mesmo tempo que ligam Rossio ao Sul do Tejo á cidade.
Eu moro ai.
Era Sábado de manhã. Rossio encontrava-se debaixo de um pesaroso manto de nuvens negras e o vento fustigava os ramos das árvores contra as janelas da sala. O Sol parecia nem existir á excepção do ínfimo rasgo dourado entre as nuvens cinzentas e carregadas, dourando o espaço á volta.
Como de á dois meses para cá, antes de o despertador tocar, levantei-me deambulante e encontrei na varanda o refúgio ideal para passar as três tortuosas horas que faltavam para a alvoraçada. Com o regresso da estação das chuvas, ficara terrivelmente ansiosa, perdendo totalmente o sono e apetite. Não considerava aquilo mau presságio, simplesmente algo normal. A chuva afectava-me peculiarmente.
A varanda descoberta estava tornada numa poça de água com dois centímetros de altura, qual água não era incómodo. Sentei-me na poça, refastelada contra a parede. As gotas da chuva fustigavam-me o corpo suavemente; quase como carícias. Fechei os olhos e deixei que os meus sentidos relaxassem; ali, debaixo da chuva, com a Lua brilhante numa ardente bola de fogo era demasiado fácil.
Recordei o dia anterior.
Nessa manhã de sexta-feira, havia acordado pessimamente mal. O som doentio do despertador magoava-me os ouvidos e todos os músculos do meu corpo, que começava a reagir á luz do Sol insistente no lado de fora da janela. Como todas as manhãs, de á dois meses para cá, eu estava a morrer de sono, com a sensação de ter dormitado dez minutos e com uma lerdice crónica matinal. Rastejei literalmente para fora da cama, enrolada no lençol, acabando por bater com a cabeça no puxador da gaveta da mesa-de-cabeceira. Bocejei e deixei-me ficar imóvel; o chão era despropositadamente confortável.
- Mas que maneiras são essas, Norma? Levanta-te, querida. – A mãe sussurrava-me ao ouvido, com a voz fina e fluida. Beijou-me a testa e puxou o lençol, fazendo-me rodopiar no chão. Coloquei-me de barriga para baixo, com as mãos a servirem-me de almofada e cerrei as pálpebras fortemente.
- Querida, por favor, levanta-te. – Pediu a mãe, em tom de advertência. Eu continuei a fingir dormir.
- Muito bem, Norma. – O seu tom já não era risonho e já não havia a nota divertida. – Se quando eu acabar o pequeno-almoço tu ainda não estiveres pronta, eu juro que nunca mais, num fim-de-semana da tua vida, pões os pés em casa dos teus avós!
Abri os olhos repentinamente, levantando-me com a raiva a produzir a adrenalina que me dera uma força súbita nas pernas e me aquecera o corpo.
- Nem tentes fazê-lo. Sabes perfeitamente que nunca mais porias os olhos em mim. – sibilei.
A mãe abanou a cabeça.
- Porque é que tens sempre de me atacar? Porque é que nós não podemos ser uma mãe e filha, como eu vejo as minhas colegas do hospital? – A mãe falara com voz frágil, como esgotada. Não tive pena.
Sorri, amargamente.
- Talvez as filhas das tuas colegas não vejam os seus pais nos avós paternos. Vou tomar o pequeno-almoço.
A mãe ficou para traz, imóvel no lugar, enquanto eu caminhava imperturbável pelo corredor. O meu pai já havia tomado o pequeno-almoço, óbvio. Á quase três dias que não o via; era praticamente impossível encontrar-me com ele em casa. Tinha-se de mandar mensagem para o Blackberry ou ligar para a recepção do hospital para pedir alguma coisa. Sim, porque eu só pedia. Pelo menos, desde que as mensagens de bom-dia! e bom trabalho! ficaram esquecidas na caixa de entrada do seu aparelho.
Peguei numa taça, no pacote de cereais Nesquik e verti o leite achocolatado de pacote para dentro da taça esbranquiçada. Era a fundição perfeita de calorias matinais.
- Os cereais já têm chocolate suficiente, Norma. Escusa-savas de por o leite achocolatado. – A mãe soluçou, de olhos molhados e faces marcadas com rastos de lágrimas. Senti raiva, não sei se dela por estar a chorar ou de mim, por tê-la magoada a esse ponto.
- Precisas mesmo de chorar? – indaguei friamente mas desanimada. Eram poucas as vezes que eu me sentia arrependida dos meus actos.
- É um direito do ser humano, querida. Eu choro como rio. – Sorriu.
Baixei o olhar, enquanto brincava com os cereais.
- Tu sabes como eu sou de manhã, mãe. Sou preguiçosa e anormalmente mal-educada. E depois tu vens-me fazer uma chantagem daquelas… eu desnorteei-me. Fraca desculpa, eu sei, mas…
- Eu choro porque eu sei que tu tens razão, Norma. E eu seria incapaz de te proibir de ver os teus avós, logo agora, neste momento difícil. – O momento difícil era o facto de o meu avô ter tido recentemente um AVC, que lhe afectara algumas partes do corpo. Já não conseguia falar normalmente e o seu Alzheimer ficara mais acentuado.
- Mas, parecendo que não, eu e o teu pai amamos-te muito. Eu sei o que tu pensas, filha. Tu achas que não existes para nós, mas não é verdade. Simplesmente…
- Vocês não têm tempo.
A minha mãe mordeu o lábio inferior.
- Nunca te faltou nada.
- Pois não. – Sorri. – E o que faltou da vossa parte, os meus avós deram-me e partilharam comigo. E não digo isto de modo a atacar-te, só que sou demasiado parecida com o pai; não gosto de reter coisas na garganta e no coração.
Levei uma colherada de cereais á boca, perguntando-me se era mesmo um coração que tinha.
- Vou para o hospital daqui a um quarto de hora. Posso deixar-te na escola.
Assenti com a cabeça, enquanto mastigava abruptamente de boca cheia.
Passado um quarto de hora, entrei no Renault Clio cinza da mãe, enquanto punha os phones nos ouvidos e mascava pastilha elástica. Os óculos de Sol escondiam-me as olheiras, enquanto as gotinhas de chuva molhavam-me o cabelo.
- Filha - mastiga a pastilha de boca fechada.
- Estou a incomodar-te? – Perguntei, cinicamente.
- É falta de educação fazê-lo.
Apeteceu-me dizer “Qual educação? Aquela que tu me deste?” mas não havia necessidade de provocar outra situação. Continuei a mascar a pastilha, de boca fechada, ao som de rock no meu MP3. Coloquei os pés em cima do banco, enquanto acompanhava o ritmo da música com umas baquetas imaginárias. Ainda pensei que a minha mãe voltasse-me a advertir para os bons comportamentos, mas ela permaneceu em silêncio. E o meu ego ficou magoado.
- Até logo. – Despedi-me, enquanto sai do carro e bati com a porta do carro. Junto ao portão da escola estava Vicente.
- Era a tua mãe? – Perguntou-me, enquanto se aproximava para me dar dois beijos.
- Já viste a sorte que tiveste em vê-la? Uma pessoa sempre tão sem tempo… Mas o meu pai nunca irás ver. – Fingi lamentar, gozando com a minha situação débil.
Ele abanou a cabeça.
- Ainda não percebi porquê tanta raiva ou o que é isso, em relação aos teus pais. Eles parecem-me boas pessoas. Eles não são médicos?
- O meu pai é cirurgião e a minha mãe é enfermeira. Isso faz deles boas pessoas, só porque salvam vidas de pessoas que nem conhecem? – Eles nem me conhecem – a sua própria filha.
Era ridículo dizer que eles eram boas pessoas só terem uma profissão quase nobre. Mas que interesse isso tinha para mim? Claro que tinha orgulho neles e gostava de poder usufruir do nível de vida que tinha por causa dos seus empregos, mas gostaria de ser mais do que uma peça de decoração em casa.
- Não te posso dizer nada em relação a isso. – Lamentou Vicente.
Sorri-lhe, agradecendo-lhe o facto de ele demonstrar preocupação. Era agradável saber que alguém se importava connosco, para além do seu umbigo.
- E este fim-de-semana o que fazemos? – Perguntou-me, mudando de tema. Começámos a caminhar pelo pátio, em direcção ao edifício um, onde teríamos a primeira aula da manhã.
Estremeci.
- Vou para a casa dos meus tios.

Os meus pensamentos estavam de tal maneira dispersos, entrevados num passado próximo, absorvendo a minha total concentração e sentidos que me esquecera literalmente que estava na varanda. Nessa altura, a chuva já havia cessado mas as nuvens continuavam negras, apesar de mais claras, devido á luz do dia. Apressei-me para a casa de banho, antes que a mãe ou o pai pudessem ver a minha figura molhada. Nem me preocupei com os meus avós; eles dormiam até tarde.
Foi quando regressei da casa de banho que dei pelo espesso manto de nuvens, dourado no ínfimo rasgo no céu. Não me atrevi a abrir a janela; o vento ainda soprava forte.

sábado, 20 de junho de 2009

Prefácio

Mestre Matuiing

Hugh Clarkson parou em frente da pequena cabana coberta com palhas amarradas e entrelaçadas, formando um telhado frágil. Respirou fundo antes de passar pelo pano colorido que cobria a entrada da cabana.
- Seja bem recebido na minha casa, Kondro. – sibilou uma voz grave e rouca, gasta pelo tempo. O homem negro estava sentando sobre uma carpete colorida, com as pernas cruzadas em chinês e tinha os olhos cerrados. O cheiro aromático do incenso era demasiado forte e pesado no ambiente quente.
Matuiing tinha aspecto de nativo. Várias rugas a marcavam-lhe o rosto velho e o seu longo cabelo azul-escuro caia pelas costas despidas. A barbicha no queixo enrolava-se num pequeno caracol.
- Mestre Matuiing mandou-me chamar? – perguntou Hugh, enquanto o homem lhe indicava que devia sentar-se á sua frente. Hugh sentou-se sobre a carpete, com as pernas também cruzadas.
- Sim, Kondro Hugh. Pedi que vossa majestade viesse urgentemente ao meu encontro pois á tempo demasiado que espero ter esta conversa com vossa majestade. Adiei este encontro até onde pude, mas vossa alteza não pode esperar; Feest não pode esperar mais.
Hugh fitou o homem negro durante alguns momentos, sem se pronunciar. O silêncio era incómodo naquele momento de expectativa e o jovem de cabelos curtos castanho dourado começava a interrogar-se o que tão grave poderia estar para acontecer. O homem nativo continuava calmo e sereno, inatingível.
O homem continuou.
- Vossa majestade acredita na magia de Feest? Acredita em todos os seres sobrenaturais e sobre-humanos que habitam nas terras desconhecidas de Thor?
Thor, um mundo, um planeta consumado noutra dimensão, ignorante quanto á vida noutros planetas que não a Terra, cujos habitantes também ignoram a existência do povo Thoriano. Feest é apenas uma pequena terra, uma pequena povoação nesse mundo desconhecido.
- Claro, Mestre Matuiing. Acredito em tudo o que Thor e Feest têm envolto. – garantiu o jovem, ainda confuso e ainda mais ansioso pela explicação do curandeiro.
- Então meu jovem príncipe, também acrediteis nas profecias criadas pela terra, pelo ar, pela água e pelo fogo? Acrediteis no destino organizado pelos elementos, que dizem que pouco do que nasce não morre? O Kondro acredita que só quem realmente tem capacidades e é útil neste mundo fica vivo indeterminadamente? – o homem prosseguiu, ainda impávido e sereno. Os olhos não se abriam para fitar o jovem á sua frente, que porém, continuava a olhar o curandeiro confuso.
- Acredito sim, Mestre Matuiing. O senhor é a prova que esse destino criado pelos elementos principais é verdadeiramente puro. – Hugh inclinou um pouco a cabeça, fazendo uma vénia ao velho nativo.
O homem esboçou um pequeno sorriso.
- Então, estais pronto para conhecer a sua profecia, o seu destino que espero que não tente lutar contra ele?
- O meu destino já está consumado, Mestre Matuiing. Casarei com Missina e ajudarei minha irmã a governar Feest. – afirmou asperamente o rapaz.
- Cuidado com a escolha de palavras, meu jovem. Esse não é o seu destino consumado; é o destino que os seus pais quiseram para si, pensando como humanos. Meu jovem, apesar de serdes humano, uma ligação forte prende-vos a Feest; vossa alteza é uma criatura tão mágica como outra habitante nos montes e nas águas de Thor.
Hugh não retorquiu. Continuou a fitar o velho, que sorria mais abertamente, como se estivesse a ler o seu pensamento confuso.
- Vossa majestade ainda é jovem, livre de viver tantas experiências mas o seu destino está traçado desde sempre. E será inevitável que se concretize.
- Eu não quero ouvir mais, Mestre Matuiing – Hugh levantou-se da carpete colorida. – Eu não necessito de saber uma profecia em que eu não acredito.
- O príncipe pensa que é imune aos elementos, por ser humano.
O homem afirmava.
- Sim, penso mesmo que sim. Penso que Arkeu não me tem em conta na sua lista. – murmurou, rispidamente.
- O facto de não terdes um Dom, não significa nada. – o homem sorriu.
- Desculpe Mestre, mas vou-me embora.
- Tenho pena que não queiras saber o seu destino, vossa alteza. Que Arkeu o acompanhe.
- Não penso que ele me acompanhe. – retorquiu Hugh, enquanto saia da pequena cabana e caminhava para a diligência real que o esperava a poucos metros do bosque aberto.
No dia seguinte, Mestre Matuiing foi encontrado sem vida na sua cabana. A sua vida que durara longos milénios em Feest chegara ao fim após ter cumprido a sua última missão: tentar contar ao Kondro de Feest o que lhe esperava.
A guerra começaria a partir daquele momento em que Feest, uma terra nos subúrbios de Thor, estava demasiado frágil sem o seu curandeiro principal, o Mestre Matuiing.
E só uma pessoa poderia salvar Feest, num cruzar de destino fatal, em que o amor e o ódio, a paixão e a compaixão andariam de braços dados.